Lutadores do movimento negro sergipano recebem Comenda Abdias Nascimento

Escrito por Débora Melo Ligado TPL_WARP_PUBLISH . Publicado em Notícias

No dia em que se comemora a Consciência Negra, a Assembleia Legislativa de Sergipe prestou uma homenagem, com a outorga da Medalha Senador Abdias Nascimento, a nove militantes - quilombolas e professoras - que desafiaram e permanecem desafiando o racismo estrutural em nossa sociedade. São eles: as professoras da UFS e militantes do movimento negro Maria Batista Lima e Maria Nele Santos, a conhecida parteira sergipana Josefa Maria da Silva Santos (a Zefa da Guia) e as lideranças do movimento quilombola em Sergipe Maria Izaltina Silva Santos, Luiz Augusto Bomfim, Xifroneze Santos, Maria Gressi de Santana Silveira; Magno de Oliveira Barros e José Welington Fontes.

A iniciativa de institucionalizar a Comenda foi da deputada estadual Ana Lúcia, por meio de Resolução que garante a homenagem anualmente a personalidades que tenham contribuído com o combate ao racismo. Antes disso, a então deputada Conceição Vieira homenageava os militantes através do seu mandato com o “Troféu Abdias Nascimento”.

A comenda carrega o nome de um grande militante, artista engajado, intelectual, pan-africanista, militante trabalhista e político que dedicou toda a sua vida, desde a juventude até a sua morte, à luta pela igualdade racial no Brasil. “Abdias resistiu e enfrentou duas ditaduras, participou de momentos de construção e reconstrução da nossa democracia, sempre defendendo a justiça, os direitos humanos e a igualdade racial. Sua coragem de desafiar a elite deste país foi tão importante para os negros e negras brasileiros, que sua luta e sua história se confundem com a história do movimento negro no Brasil”, destacou Ana Lúcia em seu discurso.

“Hoje, por trás da falsa ideia de democracia racial, nossa população negra lidera todos os alarmantes índices de desigualdades sociais”, lamentou a deputada, ressaltando aspectos como o extermínio da juventude negra, a vulnerabilidade à violência – inclusive simbólica - da mulher negra, a perseguição racista contra as religiões de matriz africanas, o silêncio existente sobre a participação do negro na história do Brasil e a negação da cultura afro-brasileira com parte fundamental da nossa formação cultural. Ela destacou que o racismo não nasce do ímpeto de cada pessoa, mas é o próprio Estado brasileiro que ao negar a igualdade de oportunidades aos negros e negras no Brasil e não executar políticas públicas que promovam esta equiparação de oportunidades, reforça o racismo estrutural.

Para Ana Lúcia, é necessário reparar os erros históricos que culminaram nessa profunda desigualdade racial e social e, segundo ela, uma dessas reparações necessárias é a demarcação das terras quilombolas. “Vocês vivenciaram disputas de terra, opressão e atos de violência e muitas vezes enfrentaram corajosamente o poder econômico de famílias tradicionais de nosso Estado e de grandes empreiteiras para que suas comunidades pudessem ser reconhecidas como remanescentes de quilombos e tivessem de volta as terras onde por diversas gerações já viviam suas famílias”, completou a parlamentar.

“Fazer essa luta não é fácil. Não é fácil viver na zona rural rodeada de latifundiários que não tem coração, rodeado de gestores e parlamentares que não sabem o que é política afirmativa para negros e negras, que muitas vezes usam seus poderes de gestores para oprimir e não para desenvolver políticas públicas em defesa da população que mais precisa, não para fazer o que estão fazendo com nosso país: rasgando toda uma história de resistência de um povo”, lamentou a presidenta da Federação Quilombola de Sergipe e liderança da comunidade Caraíbas, em Canhoba, Xifroneze Santos.

“Somos 45 comunidades, 31 territórios e cada dia mais comunidades vão se reconhecendo. A gente vive a desigualdade. Todos os dias temos que vencer uma batalha. Somos o alicerce de resistência contra a escravidão e a liberdade ainda não chegou. Não é fácil, mas aos poucos as conquistas vão chegando. Percebi que a conquista melhor de uma comunidade é seu território, é seu pedaço de chão. A terra é poder, porque dá autonomia para a comunidade. Aqueles que tiraram os territórios das comunidades quilombolas sabiam o que estavam fazendo, pois sem a terra a comunidade fica vulnerável.

A professora Maria Nele emocionou os presentes ao retratar a perversidade do racismo a partir do seu lugar de fala, retomando sua própria história. Ela encerrou o pronunciamento com um poema do patrono da comenda, Abdias Nascimento. “Exu, tu que és o senhor dos caminhos da libertação do teu povo, sabes daqueles que empunharam teus ferros em brasa contra a injustiça e a opressão: Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama Cosme Isidoro João Cândido. Sabes que em cada coração de negro há um quilombo pulsando”.